Aos 67 anos, palhaço que marcou gerações no Acre mantém paixão pelos palcos: 'É necessário fazer teatro'

  • 19/09/2026
(Foto: Reprodução)
Aos 67 anos, palhaço que marcou gerações no Acre mantém paixão pelos palcos No Acre, quem conhece o Palhaço Tenorino talvez nem saiba o nome de quem está por trás da maquiagem e do figurino. Mas, é bem provável que alguma lembrança venha junto: uma festa de criança, uma apresentação, um aniversário ou até uma visita à escola. Neste sábado (19), onde se comemora o Dia Nacional do Teatro, o g1 conta a história de Dinho Gonçalves que chegou ao Acre em 1981 e que encontrou no teatro um caminho que segue até hoje. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp Dos 67 anos de idade, o artista já soma 46 de trajetória nos palcos e, mesmo depois de tanto tempo, ainda fala sobre o teatro com a disposição de quem ainda tem muito para fazer. Antes de virar uma figura conhecida pelo personagem que marcou gerações, Dinho precisou descobrir o que o palco significava para ele. Segundo o artista, a paixão começou ainda em São Paulo, no fim dos anos 1970, quando ele insistiu com um professor de inglês para ter uma oportunidade no teatro. ''Eu nasci no estado de São Paulo e passei a infância e a juventude em Sorocaba, lá eu comecei a trabalhar ainda adolescente. Lá pelos meus 19 anos, pedi várias vezes para um professor de inglês meu a chance de entrar no teatro. Eu sempre fui bem gaiato [sic], e na época esse professor era diretor, e, mais tarde, se tornou dramaturgo, diretor e teórico do teatro brasileiro'', relembrou. Dinho Gonçalves caracterizado como o Palhaço Tenorino, personagem que interpreta desde 1982 no Acre Teatro GPT/Instagram A oportunidade veio então em um curso de 300 horas. Ao fim da formação, Dinho participou da montagem de Galileo Galilei, de Bertolt Brecht, e depois integrou outros dois espetáculos como: Arde, o Brasil e a Nossa Sina e Trampo e Gandaia. As peças passaram por Sorocaba, outras cidades de São Paulo e também pelo Paraná. A primeira experiência no palco ficou guardada na memória do artista de um jeito bem particular. Conforme Dinho, foi quase um ano de ensaio até a estreia. O público lotou a casa e terminou a apresentação de pé, com aplausos. “Foi uma bela apresentação, um público excelente, teatro lotado, aplaudindo em pé, aquela loucura. Eu nunca tinha participado de uma coisa dessa. Eu fiquei meio paralisado. Depois da apresentação, o grupo saiu para comemorar e comer uma pizza. Na pizzaria eu quase não falava, fiquei umas duas horas assim, meio mudo. Acho que a palavra mais adequada para o Acre é ‘abestado’, ‘abestalhado [sic]'', contou. LEIA MAIS: Com lápis de cor, artista plástico faz quadros abordando a cultura acreana e expõe obras em Rio Branco Palhaço há sete anos, professor usa humor para levar arte a comunidades no AC: 'Não é só performance' 'Minha família diz que já nasci palhaço', diz estátua viva no AC Foi nesse período que Dinho percebeu que o teatro não seria apenas uma experiência passageira. Ele até passou por outras áreas, deu aulas e trabalhou para garantir a sobrevivência, mas não conseguiu se afastar dos palcos. “O que me fez apaixonar pelo teatro foi o próprio teatro, a convivência com os artistas, o processo de montagem, a exigência da disciplina, do ator que precisa ter um foco e concentração grande no que está fazendo. Eu fiz outras coisas, mas o que me fez seguir no teatro é porque eu não consegui viver sem fazer teatro. Era uma necessidade que eu tinha''', explicou. Por cerca de dez anos, Dinho passou por diferentes elencos até sentir vontade de montar o próprio grupo. Segundo ele, a ideia saiu do papel em 9 de março de 1991, depois de um encontro com jovens ligados à palhaçaria em Rio Branco. ''Depois do encontro com esses jovens, nasceu o Grupo do Palhaço Tenorino (GPT), que completou 35 anos em março deste ano. Nesse encontro também estava a minha esposa, então desde o dia da fundação a minha esposa permanece comigo até hoje, ela é muito importante e essencial pra existência desse grupo e por sorte é a minha esposa'', destacou. Integrantes do Grupo do Palhaço Tenorino durante apresentação do espetáculo Os Saltimbancos Arquivo pessoal O grupo acumulou diferentes montagens ao longo dos anos, entre elas Os Saltimbancos, A Menina e o Palhaço, Quem é o Rei, A Feira, As Confiadas e Lepras. Algumas peças também contam com integrantes da própria família de Dinho, o que facilita a organização. Outras envolvem mais de dez pessoas e tornam a agenda um dos principais desafios. Da chegada no Acre ao Palhaço Tenorino A mudança de Dinho para o estado acreano abriu uma nova fase da trajetória e colocou o artista em contato com nomes que já atuavam na cena teatral do estado. O Palhaço Tenorino surgiu por volta de 1982, depois de um convite de um artista que interpretava o palhaço Trimpolim e chamou Dinho para uma apresentação na Casa de Acolhida Souza Araújo. Foi ali que vieram a maquiagem, a roupa improvisada e o nome que acompanharia Dinho por décadas. “O Jorge Carlos, conhecido também como João Maiara e Mané do Café, me pintou, improvisou uma roupa em mim e me levou para o Souza Araújo. E o Tenorino está até hoje por aí. Fiz centenas e centenas de animações de palhaçada na década de 80 e 90, em aniversários, associações, clubes, propagandas de televisão. Até que teve uma hora que eu cansei de fazer palhaçada e parei'', brincou. O personagem deixou as festas, mas não desapareceu. Em 2001, quando Dinho já reduzia as apresentações em eventos, ele e a esposa criaram A Menina e o Palhaço. Na peça, que tem quase 26 anos, o artista voltou a vestir o personagem. Dinho Gonçalves caracterizado como o Palhaço Tenorino durante apresentação do espetáculo A Menina e o Palhaço Teatro GPT/Instagram O espetáculo passou por diferentes estados brasileiros, como São Paulo, Paraná, Roraima, Mato Grosso, Amapá e Amazonas. E Tenorino ganhou uma vida que ultrapassou os palcos. Dinho conta que ainda encontra pessoas pela rua, no supermercado e em outros lugares que o reconhecem pela maquiagem e lembram de quando o personagem fez parte da infância delas. “É incrível. Sempre aparece alguém para me cumprimentar, me abraçar e falar que eu fiz parte da vida dela ou da vida do filho dela, que já é adulto. Para mim isso dá uma satisfação muito grande. Eu fico muito feliz com isso'', destacou. De volta à origem A ligação com a Casa de Acolhida Souza Araújo também não ficou no passado. Foi ali que Tenorino apareceu pela primeira vez e é para lá que Dinho continua voltando. A cada dois ou três meses, ele se reúne com amigos que também criaram vínculo com os moradores da casa. O grupo leva bolo, salgados, refrigerantes ou sucos, canta e passa de quarto em quarto durante uma manhã. A relação com o espaço também influenciou outro trabalho importante da carreira. Em 'Lepras', Dinho atua e aborda a vida de pessoas com hanseníase, além do abandono, do preconceito e do isolamento enfrentados por quem viveu na instituição. Dinho Gonçalves se apresenta caracterizado como o Palhaço Tenorino e toca violão Teatro GPT/Instagram A peça nasceu como um novo desafio depois de mais de quatro décadas de teatro. Em apresentações anteriores, Dinho colocou no palco uma história ligada ao próprio lugar que marcou o início do Tenorino. “Além dele não ter morrido porque ele [Tenorino] está na peça, de vez em quando a gente apresenta em alguns lugares e já fez várias apresentações por vários estados. Também faço uma ação no Souza Araújo. Eu me apaixonei pelo lugar e, ao longo desses quarenta e tantos anos, nunca mais deixei de ir lá. O Palhaço Tenorino é isso, é uma coisa marcante para o povo e ele ainda não morreu. Vai morrer só quando eu morrer mesmo'', disse. ‘Só faltam 33 anos’ Embora já se aproxime dos 70 anos, Dinho não pensa em parar. Ele transforma a própria idade em uma espécie de contagem regressiva, numa matemática que leva o bom humor a sério. Se pretende chegar aos 100, como ele diz, ainda restam 33 anos para subir ao palco. Porém, o número também revela uma preocupação real: a sensação de que o tempo passa e que ainda há muitas histórias que gostaria de colocar em cena. “A minha vontade é viver até 150 para fazer mais espetáculos, mas acho que é meio improvável eu passar dos 100. Se eu chegar aos 80, está bom demais. É o tempo. A gente sabe que o tempo vai diminuindo no final da jornada. Aí a preocupação agora é: vou ter mais quanto tempo para fazer teatro? Mais dez anos? Mais vinte? Quando você pensa nesses números, dá uma certa agonia. ‘Meu Deus do céu, só isso?’', brincou. É justamente ao pensar no tempo que Dinho lembra das escolas que encontra pelo caminho. Nas estradas, ramais e comunidades do Acre, basta avistar uma escola rural ou ribeirinha para surgir a vontade de levar uma peça até lá. “Quando eu vejo uma escola rural, uma escola ribeirinha, eu fico louco, louco, louco de vontade de ir para aquele lugar. [...] Tem lugares em que eu ainda não cheguei, então é muito gratificante poder levar espetáculos para essas pessoas, é muito prazeroso'', destacou. Aos 67 anos, Dinho Gonçalves mantém a disposição para estar perto do público e levar o teatro a diferentes espaços Teatro GPT/Instagram Para Dinho, é essa vontade de chegar a diferentes públicos que ainda dá sentido aos anos de carreira. Ele diz que o teatro depende tanto de quem está no palco quanto de quem assiste. “Com o tempo, a gente percebe que é necessário fazer teatro. A gente vai aprendendo que a plateia precisa de teatro e nós precisamos da plateia. A plateia merece e precisa de coisas boas. A gente tenta fazer coisas boas que levem ânimo, que levem reflexões importantes acerca do mundo que a gente vive'', completou. VÍDEOS: g1

FONTE: https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2026/09/19/aos-67-anos-palhaco-que-marcou-geracoes-no-acre-mantem-paixao-pelos-palcos-e-necessario-fazer-teatro.ghtml


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